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segunda-feira, 6 de março de 2017

Revolucionárias modernistas


Apesar de tímida em números, a participação das mulheres na Semana de Arte Moderna e nos anos que seguiram o movimento teve importância fundamental para o desenvolvimento de uma identidade cultural brasileira.

Há mais de 90 anos, a Semana de Arte Moderna terminava em São Paulo — ela ocorreu entre 11 e 17 de fevereiro. O movimento que reuniu artistas plásticos, músicos, poetas e escritores mudou a história cultural do Brasil. Além de propor uma nova maneira de fazer e ver a arte, os participantes revolucionaram o comportamento da época. Eles provocaram a sociedade conservadora paulistana a pensar de uma maneira mais vanguardista. Fizeram obras que fugiam do tradicional e questionaram os valores da família brasileira. Parte dessa mudança estava na inclusão das mulheres na raiz do movimento. Apesar de apenas três terem participado do evento — Anita Malfatti e Zina Aita expuseram quadros e Guiomar Novais tocou Chopin no piano —, elas foram pioneiras, pois usaram técnicas artísticas que não eram de “bom tom” para as mulheres adotarem.

Apesar do número pequeno, o passo foi grande quando se contextualiza o período. Às mulheres não era nem permitido votar — esse direito só foi concedido 10 anos depois. Elas eram criadas para casar e ter filhos. Fazer quadros para expor já era um escândalo, participar de um movimento vanguardista era ainda mais inimaginável. “Elas provocaram mudanças no comportamento feminino que só foram ser sentidos anos depois. Pagu, por exemplo, que entrou no movimento anos mais tarde, foi influenciada por essa geração de mulheres”, analisa Antônio Carlos Abdalla, que foi curador da exposição Tarsila do Amaral . Quando se refere às artes plásticas, Anita e Tarsila — que chegou de Paris no fim de 1922 — se transformaram nos grandes nomes do modernismo.

Há quem acredita que o movimento não seria o mesmo sem a participação delas. Afinal, foi Anita Malfati a primeira modernista a fazer uma exposição no Brasil, antes mesmo de qualquer um dos outros integrantes homens. Em 1917, recém-chegada de estudos no exterior, ela resolveu expor suas criações inspirada no expressionismo alemão. Além de não pintar paisagens sem graça e temas religiosos — o que a sociedade esperava das mulheres artistas —, Anita representou alguns nus masculinos com gestos femininos. Ela foi duramente criticada pelos jornalistas na época, principalmente por Monteiro Lobato — que ainda não era um grande escritor de histórias infantis —, no artigo Paranoia ou mistificação?.

“Penso que Lobato e seus contemporâneos, embora concentrassem sua crítica no estilo modernista de Malfatti, estavam certamente escandalizados pela liberdade daquela jovem”, escreveu Ana Mae Barbosa, professora da Universidade de São Paulo, em artigo escrito para o 19° Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas. Mas foram as duras críticas ao trabalho de Anita que impulsionaram os modernistas a se juntarem para defender os ideias do movimento. “A partir dali, começou a se formar o movimento, os artistas que pensavam de forma parecida se uniram e, naquele momento, a sociedade foi provocada por algo inteiramente diferente”, ressalta Maria de Lourdes Teodoro, professora aposentada de artes plásticas da Universidade de Brasília (UnB).

O clima de aprovação e aversão do modernismo provocou uma mudança notória no comportamento da sociedade brasileira. A Semana de Arte Moderna foi responsável pela construção da modernidade no Brasil. Ela estimulou uma vida cultural interessante. A união das elites cultural e social gerou uma série de novas medidas, como projetos de museus, universidades, jornais importantes e partidos políticos. “A semana de arte não teria importância sozinha. Foram as mudanças que o evento provocou na vida cultural e intelectual de São Paulo que legitimaram o movimento”, acredita Maria Eugênia Boaventura, professora de teoria literária da Universidade de Campinas.

No limbo
As artistas mulheres brasileiras do século 19 e início do século 20 foram apagadas da história da arte. No tempo em que produziram, entre as décadas de 1890 e 1910, eram reconhecidas como grandes pintoras, mas caíram no esquecimento ao longo dos anos. Nomes como Maria Pardos, Abigail de Andrade e Alice Santiago tiveram significativa espaço no cenário mundial, participaram de exposições fora do Brasil, mas atualmente não têm peso na história da arte brasileira. Foi só após a Semana de Arte Moderna de 1922, com Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, que as mulheres foram reconhecidas como importantes para a história cultural do país.

Comportamento de vanguarda

Cada uma delas era moderna à sua maneira. E todas tinham em comum o fato de nunca terem levantado a bandeira do feminismo — mesmo que o movimento considere a participação delas importante para a emancipação da mulher. Tanto que as modernistas nunca fizeram um movimento paralelo das mulheres-artistas. Eram amigas, apesar de terem algumas brigas ao longo dos anos. Elas simplesmente viviam suas vidas, mas de uma maneira vanguardista para a época. “Apesar de terem uma vida agitada, elas não faziam essas coisas para chocar. Era o jeito delas”, acredita Tarsila do Amaral, sobrinha-neta da artista, de quem herdou o nome.

Tarsila do Amaral (1886 – 1973)

Tarsila do Amaral sempre foi exuberante. A artista veio de família burguesa de São Paulo. Casou-se pela primeira vez em 1904 e, em 1913, conseguiu anular o casamento. Resolveu largar a vida de dona de casa e foi estudar arte. Mas foi em Paris que refinou o seu estilo de pintar e a maneira de se vestir. Passou a usar vestidos de Paul Poiret, adotou o batom vermelho e os cabelos eram cuidadosamente penteados para trás. “Era um mulher elegante até para os padrões parisienses. Dizem que quando ela andava pelas ruas da capital francesa, todos viravam os olhos para vê-la”, conta Antônio Carlos Abdalla, curador da exposição Tarsila do Amaral — Percurso afetivo. Casada com o playboy e artista brasileiro Oswald de Andrade, o relacionamento foi interrompido por conta do caso que ele teve com Pagu. Ela se separou e, ao longo da vida, casou-se novamente outras duas vezes. Inclusive com um homem 21 anos mais novo. “Minha tia, entretanto, era supereducada e não fazia para agredir os outros. Ela simplesmente buscava a felicidade”, acredita a sobrinha-neta.



Anita Malfatti (1889 – 1964)

Anita Malfatti era a mais discreta de todas, ao mesmo tempo que fez os quadros mais irreverentes. Veio de família humilde e teve que batalhar para ganhar a vida como artista. Desde menina resolveu estudar arte e antes da Semana de 1922 já tinha rodado a Europa. Ela dava aula de arte acadêmica para se sustentar. Era muito tímida e não frequentava a noite paulistana. Tinha um problema na mão que a deixava muito reclusa. Nunca se casou e, ao contrário das mulheres de sua época, passou a vida sem depender de nenhum homem — mas dizem que era apaixonada pelo Mario de Andrade. Ela foi a principal mulher do movimento — pelo menos no início — e introduziu Tarsila, uma antiga amiga, no grupo. Intimidada após as críticas que Monteiro Lobato fez às suas obras, passou a fazer quadros menos vanguardistas.

Pagu (1910-1962)

Patrícia Rehder Galvão era poetisa, jornalista e ativista política. Aos 15 anos, já colaborava para o periódico de bairro Jornal do Brás. Entrou para o movimento modernista aos 18 anos. Pagu, como era conhecida, era mais agressiva do que as companheiras. Usava roupas de homem e até fumava em público. Teve um breve casamento com o pintor Waldemar Belisário. Na época, ficou amiga de Tarsila do Amaral. As duas, entretanto, romperam o relacionamento após ela ter um caso amoroso com Oswald de Andrade, marido da pintora, e com quem morou junto por alguns anos. O casal se filiou ao partido comunista, teve um filho e criou um pasquim político. Ela foi uma das primeiras mulheres a ser presa por motivos políticos. Ficou ainda mais conhecida ao escrever o romance Parque industrial, que denunciava as condições socioeconômicas em que viviam os proletários e desmistificava a posição doméstica das mulheres. O sucesso do livro a levou a ser correspondente internacional para vários jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Quando voltou ao Brasil, entrou de vez na política e chegou até se candidatar a uma vaga de deputada estadual.

Olívia Guedes Penteado (1872-1934)

A mecenas dos modernistas nasceu em berço de ouro. Seus pais eram os barões de Pirapingui, que tinham uma importante plantação de café. Passou a infância na fazenda da família até se mudar para São Paulo. Aos 16 anos, casou-se com o primo Inácio Penteado. No início do casamento, moravam em Santos (SP), mas voltaram para a capital após um surto de febre amarela. Construíram uma casa no bairro Campos Elíseos. Era lá que se encontravam os artistas e os intelectuais da época. Depois de uma temporada em Paris — para tratar os problemas de saúde de Inácio —, eles voltaram para o Brasil, em 1913, e Inácio morreu no ano seguinte. Após o fim da primeira guerra, Olívia voltou a Paris, mas retornou ao Brasil em 1922 para conhecer todos os modernistas. Passou a investir em projetos de divulgação da cultura e a abrir a sua casa para as reuniões dos artistas. Além de ser uma importante colecionadora de arte, montou ateliês e galerias para expor novos trabalhos.

Para ler









Fonte: Correio Braziliense

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