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domingo, 24 de abril de 2011

Revele à turma o que as obras falsas escondem

Introdução
Se é difícil ter um bom olho para determinar a qualidade artística (e mercadológica) de uma pintura, imagine a complexidade da tarefa de atestar a autoria ou a autenticidade dessas obras, que valem somas vultosas. Raios X e análise de pigmentos são algumas tecnologias que facilitam a identificação do pintor. Mas, quando mesmo esses recursos deixam dúvidas, só resta o referendo de especialistas. Eles se baseiam, principalmente, em exame de técnica e estilo do artista. É o caso da tela A Ressurreição de Cristo, de Rafael, que faz parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo (veja a foto abaixo). A verificação de padrões associados ao estilo pode agora ser realizada por programas de computador, o que dá mais segurança aos avaliadores. O assunto, tratado por VEJA, permite discutir com os alunos os conceitos de imitação e cópia e como tais práticas já foram permitidas – e até incentivadas – em outros tempos.
A Ressurreição de Cristo: o estilo e a técnica. Foto: Archivo Iconografico, S.A./ Corbis /Stock Photos
A Ressurreição de Cristo: o estilo e a técnica
Escolha uma fotografia qualquer de alguma pintura famosa. Apresente o material aos estudantes e pergunte o que eles vêem. É provável que muitos reconheçam a obra de arte e um ou outro pode até identificar o título e o autor. Revele que se trata apenas de uma reprodução, ou seja, uma imagem construída para substituir a original. A função dessa cópia pode ser didática – para um professor – ou criminosa, quando utilizada como falsificação.

Conte para a turma que realizar cópias de obras famosas era uma prática comum na Antiguidade greco-romana. A admiração pela arte helenística gerou réplicas em mármore e bronze que adornavam casas, jardins e bibliotecas das famílias nobres. No fim da Idade Média, quando as longas viagens ainda eram difíceis, a reprodução de pinturas permitiu que artistas jovens conhecessem o trabalho de mestres importantes. Isso contribuiu para difundir o saber artístico e instaurar o Renascimento no século XV. Nas academias, fundadas a partir do século XVI, o hábito da imitação e da cópia era fundamental para o aprendizado. Tanto que os bolsistas da Academia Imperial do Brasil, em estudos na Europa, tinham como incumbência a produção de cópias de obras expostas em igrejas e museus. O fruto desse trabalho foi enviado para a criação de uma pinacoteca de estudos (hoje no acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro). Por outro lado, nos ateliês dos artistas era prática corrente entre os discípulos a imitação do mestre e a realização de tarefas menos nobres – como pintar fundos e esculpir as peças secundárias. É o caso dos soldados presentes nas capelas dos Passos, de Aleijadinho.

Destaque que o interesse pelas antiguidades acabou dando margem ao surgimento de cópias especialmente criadas para aumentar seu valor venal, incluindo assinaturas falsas, como as presentes nas gravuras de Albrecht Dürer. Com isso, o mercado passou a exigir do especialista o conhecimento das mais variadas técnicas de autenticação e avaliação de obras.

Questione o problema da autenticidade para a arte contemporânea. Como identificar a autoria de uma obra de arte concreta? Essa escola do século passado tinha a intenção de eliminar a intervenção manual na produção artística. As pinturas eram elaboradas mediante esquemas gráficos e projetos, característica que permitia a feitura por outras pessoas que não o próprio artista. Um exemplo é Antonio Lizárraga, que, mesmo impossibilitado de pintar por ser tetraplégico, continua produzindo telas por meio de assistentes.


Para saber mais
Tom Keating, famoso falsificador do século XX, revelou ter copiado mais de 2.000 pinturas, de cerca de 100 artistas diferentes. Ele começou como restaurador e, depois da II Guerra Mundial, usou os conhecimentos adquiridos na profissão para descobrir detalhes e técnicas específicos de pintura. Embora suas falsificações de Rembrandt, Boucher, Fragonard, Degas, Modigliani e outros autores não fossem facilmente descobertas, muitas delas traziam sinais evidentes e propositais da farsa, como textos escritos sob a pintura. Keating foi preso em 1977, dizendo que produzia suas fraudes como forma de protesto contra os marchands e donos de galerias, que enriqueciam com o trabalho dos artistas. O curioso é que, depois de sua morte, as obras falsas pintadas por ele tornaram-se peças de colecionador e atingiram preços bastante elevados em leilões de arte. A receita, segundo Keating, para envelhecer um quadro era simples: xarope de maçã queimada, clara de ovo e café em pó.

Para ir mais longe
Detetive holográfico

As técnicas para detectar falsificações aprimoram-se a cada dia. Já é possível identificar assinaturas falsificadas com grande margem de segurança graças a uma técnica desenvolvida por físicos italianos. O sistema baseia-se em hologramas tridimensionais obtidos do manuscrito, capazes de mostrar aspectos invisíveis numa análise bidimensional. Após escanear a rubrica, o sistema reconstrói com imagens em 3D todas as saliências impressas no papel resultantes da pressão exercida com a caneta, praticamente impossível de ser reproduzida por um falsário. Traços sobrepostos, por exemplo, são facilmente identificáveis.


Veja também:
Bibliografia
A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica
, Walter Benjamin, em:Magia e Técnica, Arte e Política – Ensaios sobre a Cultura, Ed. Brasiliense, tel. (11) 6198-1488


Consultoria Marco Antonio Pasqualini de Andrade
Professor de História da Arte da Universidade Federal de Uberlândia (MG)

Fonte: Nova Escola.

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