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segunda-feira, 25 de abril de 2011

A paisagem dos impressionistas. In: L’Impressionisme et le paysage français.


BRETTEL, Richard; SCHAEFER, Scott. A paisagem dos impressionistas. In: L’Impressionisme et le paysage français. Paris: Reunion des Musées Nationaux, 1985. p. 1520.
Não há dúvida de que as paisagens impressionistas são as obras de arte mais conhecidas e apreciadas que foram produzidas. Pessoas de todos os cantos do mundo conhecem as obras de Monet, Sisley , Pissarro e Renoir. A multidão de visitantes que vai aos museus consagradosa Monet e outros impressionistas é estupeficante. O mundo sabe mais da França através da visão dos impressionistas do que conhece da França mesma.  
Como um bom número de grandes obras de arte, elas parecem ser mais simples do que realmente são. Quanto mais se leem os numerosos escritos inspirados pela França, mais aparece que os quadros impressionistas foram uma componente capital da cultura francesa e não um fenômeno isolado unicamente estético. O assunto é de tal amplitude que inúmeros livros, brochuras, artigos, exposições e manifestações efêmeras lhe foram consagrados e por muitas vezes se pergunta se há mais alguma coisa a ser dita.
Os pintores, assim como os observadores da natureza, são atraídos por certas formas e não por outras. Alguns ficam emocionados descobrindo por acaso o alinhamento de uma árvore com o ângulo de uma casa vista de um ponto particular de um caminho no campo. Outros procuram intensamente formas significativas na natureza; fazendo dessas formas motivo de suas paisagens, eles submetem a natureza à sua vontade. Os impressionistas seguiram essas duas vias. Ainda que um bom número de seus quadros pareça ser resultado de uma simples transcrição, não é o caso. O estudo das paisagens de Pissarro e de Monet mostrou que cada artista modificou a natureza para adaptála às suas próprias exigências. 
Os impressionistas modificaram a forma, a proporção e o caráter da vegetação e da topografia para dar variedade a suas paisagens, para aumentar ou diminuir a importância de certos edifícios, de certas figuras ou mesmo de outras vegetações. Embora não tenham se afastado de suas residências de Normandia ou da Ile de France, eles pintaram paisagens de uma estupeficante diversidade de estados de espírito e de significações.
A maior parte dos escritos sobre os impressionistas sublinhou a modernidade de suas paisagens. Esse caráter de suas obras era bem real. Contudo, a estrutura temporal das paisagens impressionistas era mais complexa, sob o ponto de vista geográfico e humano.


Várias são as obras em que a noção de tempo mutável, tão cara aos impressionistas, se vê substituída pelo instante fixado, pela imagem de memória ou pelo tempo imutável; essas obras evocam a permanência no meio da mudança. Existe em cada quadro o tempo representado ou aquele ao qual o título se refere. É talvez uma hora do dia ou uma estação. A maior parte das paisagens impressionistas contém também uma representação do tempo, sugerida pelas formas em movimento – personagens que andam, barcos que deslizam sobre as águas, folhas que balançam ou nuvens levadas pelos ventos –, o que ajuda o espectador em sua busca da estrutura do tempo, subjacente aos ritmos cíclicos dos dias e das estações.  
Em suas paisagens, os impressionistas estiveram obcecados pela História e sua ação sobre a paisagem através das obras do homem. Edifícios antigos se levantam em seus quadros ao lado de trens e de indústrias recentemente construídas, e a maior parte das formas feitas pelas mãos do homem serve de referência ao tempo histórico.  
No momento da primeira exposição impressionista, em 1874, a França ainda sofria as humilhações da derrota na guerra francoprussiana, de 1870, e com as indenizações da guerra.
As paisagens impressionistas constituíam a resposta dos artistas ao estado de perda de orgulho decorrente da perda da guerra e de suas consequências.
Não é por acaso que essa resposta exclui praticamente toda prova dessas consequências e as dúvidas que daí resultam. 
A França dos impressionistas era uma França bela, simples e
próspera. Os barcos a vela e os peniches – símbolos flutuantes de lazeres e comércio —manobravam sobre as águas; passantes e trabalhadores agrícolas tomavam os caminhos.
Edifícios de construção recente se elevavam ao lado das fazendas, e os habitantes dos vilarejos lavavam suas roupas no rio na frente dos restaurantes que acolhiam os turistas que visitavam o subúrbio. As paisagens impressionistas são celebrações bem simples ou composições equilibradas nas quais os elementos tradicionais se avizinham com os de uma idade nova.
BRETEL, Richard. A paisagem impressionista e a imagem da França. In: L’impressionisme et le paysage français. Catálogo de exposição. Paris: Réunion des Musées Nationaux, 1985. p. 2339.
A invenção das ferrovias, no século XIX, amplificou o processo de unificação pelos transportes.
A França, como a Inglaterra e os Estados Unidos, desenvolveu esse novo meio de locomoção.
Desde o início do século aparecem os artigos e os livros sobre as estradas de ferro. Por volta de 1850, sua rede era suficientemente densa e complexa para transformar o país. 
À medida que apareciam as redes de transportes públicas e privadas, os franceses circulavam com mais facilidade, mais rapidamente, mais barato que antigamente. A facilidade de acesso à província pelas ferrovias mudou radicalmente as relações entre citadinos e o campo. Com o tempo, os habitantes das províncias podiam vir para a capital. Assim, mais que as leis, as ferrovias contribuíram para a unificação da França. As paisagens impressionistas multiplicaram as imagens de ordem e solidariedade nacional que traduzem essa evolução. Trens, navios, carros e charretes circulam facilmente sobre terra e sobre água. Pontes recentes ultrapassam rios e canais. Os citadinos podem passear nos caminhos do campo. Os camponeses trazem seus produtos para o mercado. As indústrias jogam seu vapor e sua fumaça no céu enevoado. Os campos de trigo amadurecem sob o sol. Todas essas riquezas inesgotáveis são apresentadas como se o espectador tivesse acesso a elas diretamente; a maior parte dos títulos indica que nós contemplamos um lugar real. Essas pinturas mostram um verdadeiro paraíso.
Em suas obras, os impressionistas ignoraram de bom grado a França histórica. Até 1890, eles não representaram os monumentos importantes; diminuíram a importância dos edifícios religiosos que se elevam em todas as cidades até suprimilos. A recusa a pintar edifícios históricos, igrejas, castelos era uma maneira de recusar os temas românticos que dominaram as gerações anteriores. Mas também significava recusar o passado e voltar a França na direção do futuro.
Os impressionistas rejeitaram menos radicalmente o passado da França rural do que seu passado histórico. Se os castelos são pouco numerosos, as cabanas dos camponeses aparecem
com abundância, mas de maneira muito diferente das cabanas miseráveis dos camponeses das pinturas românticas. É um campo habitado pelos homens, numa paisagem trabalhada e
elaborada pelo homem. Da mesma forma, a cidade impressionista é uma cidade que deixa transparecer as imagens de uma ferida que se cura, num esforço de uma arte que aceita de bom grado o mundo moderno. 
Porém, nenhuma imagem das imensas transformações que a
cidade sofre na época de Haussmann é mostrada nas paisagens citadinas dos impressionistas:
mais frequentemente, o mundo moderno (trens, estradas retas, bulevares, navios, parques,campos e usinas) aí aparece como se sempre tivesse feito parte da paisagem.
(Textos traduzidos e adaptados por Eliane Considera)

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